Notas sobre um (des)temor

Notas sobre um (des)temor

20 de outubro de 2018 2 Por

Por Milena Sarti

 

Hoje mesmo eu tive medo.
Ficar feliz sem nada que lhe garanta estar feliz,
dá medo na gente que, uma vez gente, precisa de certificar a felicidade, alguém que a assine embaixo.
Quando me pego feliz só por uma noite feliz, tenho medo de mim.
Esse tipo de gente que fica feliz à toa é um perigo, e por isso dá medo.
Tem algo da felicidade desse tipo que soa como um desacordo. Porque estar feliz em afinação com outro, é uma coisa passível de sustentar. Uma coisa sensata.
Agora, ficar feliz à toa, é uma coisa meio perigosa… Dá medo ficar feliz sozinha?
Um tanto de gente com medo e há gente feliz?
Quando me pego feliz nesses momentos em que nada, num horizonte comum, acena, assina… temo mesmo que me falta em sensatez, o que me sobra em idiotice.
Estar fora da realidade deve ser algo parecido com isso.
E no mesmo passo que temo, sinto caminhar em direção a algo que destemo. Curioso caminho.
Não faço sentido, destemida.
Só sinto o nada que me faz feliz hoje… e nadifico esse nada.
Temerosa de que não haja qualquer coincidência entre o que desejo, impredicado, e o que faz acontecer o mundo tão cheio de predicados.
Nesse exato momento, em que escrevo, temo que esteja a me lavar dos momentos em que só acontece o que acontece o tempo todo; ultimamente.
Me cerco de minha imaginação. Me entrincheiro na naturalidade do que se desencaixa… pois bem, é assim que faço. Que tentação: além mundo, me faço. E em protesto, me extraio indomavelmente feliz.
Que me perdoem o coro dos descontentes. Que me perdoem os afinados.
Desafi(n)o.
Acho que não me dá mais medo o medo que dá. Sou gente, diferente… “eis aqui um vivo”.