Desertora

Desertora

25 de outubro de 2018 1 Por

Por Vera Rossakoff

 

Não Amor, eu já fui uma soldada sua…
A vida custou caro.
Te cobrou fé, te saqueou a esperança.
E te deixando nu, ordena seguir.
Sem mais nada de nobre para exibir, você se esconde pelas vielas, se abriga nos becos.
E ali se esquiva daquele que mais te arruinou: o Amor.
Ah, ele deixou muitos hematomas. Não, chega!
Agora, você só quer brincar, com o que te restou.
Ali no porão da vida conhece outros mutilados.
Uma conversa aqui, um riso forçado ali.
Um beijo, um toque, uma noite.
E numa espécie de anestesia vai levando os dias…
Cumprindo os deveres num protocolo robotizado.
E guarda quem você é, a sua identidade humana,
A sua essência na última gaveta do arquivo morto.
Ela não te serve mais.
Você não a quer mais te representando.
Melhor assim, blindada.
Ah, você só não sabia do risco que corria.
Porque brincar com as formas e expressões do Amor… chama o Amor.
Ele sente seu cheiro, seu sangue nas feridas.
Sabe que ali dentro tem uma semente enterrada de alguém que mergulha
Que se doa, que paga preços, que compra brigas.
E hoje, tão ridicularizado e debochado, o Amor anda precisando de defensores.
Ele quer vísceras, quer paixão.
E se você tem, ele te encontra e… te faz pulsar novamente.
Meio cambaleando, maltrapilha, você se apresenta.
Tem medo.
Mas o Amor, eita!
Esse é malandro, sorrateiro.
Te seduz com a lembrança dos seus doces sintomas,
Com as projeções da felicidade compartilhada.
E você ainda embriagada dessa esperança outrora perdida, cede.
Deixa vir com tudo. É bom? É sim! Tem cheiro de vida.
Mas… lembra que a vida custa caro?
Teu cérebro registrou todas as contas. E começa a te alertar.
“Presta atenção nessa atitude, naquela fala.”
São indícios.
Então você lembra que a dor supera infinitamente o prazer.
Por motivos que por mais que você se esforce não consegue alcançar
E espera que um dia Deus te esclareça o propósito disso.
Você sabe que o amado sempre vai e o amor fica.
E o Amor sem o seu objeto de desejo é cruel.
Te bate, te culpa, te cobra, te deforma.
Não, definitivamente não!
Obrigada cérebro, por me lembrar.
Não Amor, eu já fui uma soldada sua, já travei sua guerra.
Não posso mais.
Porque nós sabemos que ele, o meu amado, vai embora.
Aliás, ele nunca nem chegou. Só está de passagem.
Então, já vou procurando minhas receitas de sobrevivência aqui.
Mesmo eu não as considerando nobres.
Importa sobreviver.
É Amor, concordo, poderia ser uma linda história.
Você veio bonito, inteligente, educado, generoso, íntegro.
Mas vamos acordar? Não posso te alimentar.
Lembra?
Ele também vai partir, logo vai embora.
E eu não quero morrer de fome.
E compreender que ele precisa ir, e desejar que seja feliz
É a minha prova de que mais uma vez Amor, eu te acolhi.
Mas agora, por favor, me deixa.

Estou desertando…