Gemini Feed

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15 de novembro de 2018 1 Por

Por Muriel Marinho

 

Eu havia jurado inúmeras vezes que não iria mais te escrever! Se passou muito tempo desde a última vez, eu sei. Assim como sei que eu escrevi muitas vezes, mesmo prometendo que não iria, mas parece que todos os meus caminhos retornam para você. É uma relação tão antiga a nossa; de infância, diria até que de outra vida, de tão primitiva que sua presença parece ser na minha vida.

Eu sei também que, mesmo eu não te escrevendo mais, nós nos falamos inúmeras vezes e nos encontramos tantas outras, em situações diversas. Nunca deixamos de nos encontrarmos totalmente e, com isso, estabelecer um tipo de comunicação. Sei que usei de artifícios, tentei outras abordagens, mas nenhumas delas te tocava como sei que toco agora.

Talvez é porque existe esse tal desejo. Das outras vezes eu sei que falava de você, mas não para você. Quando eu escrevo, não, eu falo para você. Existe uma intenção e com isso um desejo. Desejo, sim! Você sempre foi encantadora. Aquele tipo de beleza que é misteriosa, que às vezes assusta, mas que seduz. Deixa gente de perna bamba, uma tensão que corre tanto pela via do medo quanto, até mesmo, sexual. Porém, acredito que você sabe de todas essas coisas. Não é por isso que eu escrevo para você.

E se você me perguntar o motivo, eu posso citar muitos, mas me parece óbvio que é cansaço. Cansaço por resistir a você me rondando de inúmeras formas, mesmo a gente ter combinado de se falar indiretamente, apenas nesses eventuais encontros que tivemos, intermediados por outras pessoas. Aqueles, iguais saídas de uma sexta à noite com amigos em comum; mesmo sabendo que iríamos nos ver, mesmo combinando que não iríamos nos falar de forma tão direta, escolhemos ir.

Nesse ponto até eu me questiono: será que também não foi desejo? Enfim, não é essa a questão. O que me parece óbvio e até mesmo idiota afirmar a esse ponto é que você sempre vai estar lá, ou melhor, aqui. Você sempre estará me rodeando. Pergunto as pessoas ao meu redor e me parece que boa parte delas não tem uma relação tão próxima contigo assim, ou fingem não ter, simplesmente ignoram sua presença. Por um lado, você precisa admitir: você também me procura.

Eu vejo suas inúmeras tentativas de me alcançar, mesmo sabendo que eu não te queria. Eu vejo você fazendo jogos, até mesmo tramas com outras pessoas, combinando seus desejos de me encontrar talvez num beco sem saída, aonde posso ficar como uma presa, ou em qualquer esquina, qualquer rua que eu estiver atravessando distraidamente, sem perceber você chegando num carro ou a pé, para me pegar.

Percebi também que você mudou de roupa inúmeras vezes, mudou a aparência também, alterações estéticas, inúmeras técnicas de maquiagem, tudo para eu não te perceber chegando. E foi isso, sabe? Você me faz tantos convites, sem nem sequer falar comigo direito, que uma hora eu canso. Resistir a você é uma luta cotidiana. É visceral. É primitivo. E eu venho até aqui, me arrastando, me entregando, levantando uma bandeira branca desejando apenas paz.

Eu sei que você não quer o meu mal, você não consegue me desejar isso. Nós juntas somos como gêmeas se alimentando. É de uma conexão quase metafísica. Nós nos entendemos e é por isso também que eu te escrevo, sei que não viveria sem você! Porém também não posso viver sem eu mesma e por isso não me entrego totalmente a você.

Não escrevo porque desisti e sim por reconhecer seu esforço de me ter ao seu lado. Escrevo porque te reconheço em mim. Não julgue por um segundo que eu me esqueci de você. Me olhar no espelho é te olhar também, mas eu também vejo muito mais no espelho do que você, e é por isso que não podemos nos ver agora. Te escrever ajuda a abrandar o desejo de ter você de fato.

É como se eu tocasse um véu que cobre o seu rosto, tirasse ele e te olhasse tal como você é e então depositasse um beijo no seu rosto, deixando contigo mais uma parte de mim para a sua coleção, mas sem me entregar por completo. Acredito que assim nos satisfazemos igualmente, você não acha? Sei que você já tem muitas partes de mim, algumas arrancadas, outras dadas espontaneamente, de boa vontade, e eu carrego partes de você comigo também.

Por isso, peço que não se preocupe. Nós vamos nos reencontrar, nos olharmos cara a cara, e termos uma a outra novamente, como um dia já tivemos. Sei que quando esse dia chegar, vou te abraçar como a velha amiga que você é. Como alguém que, mesmo me irritando muitas vezes, me ensinou muito e por quem tenho muita gratidão. Sim, gratidão! Parece inesperado, não é mesmo? Mas não. Eu aprendi muito contigo e espero que, de alguma forma, na sua existência secular, eu também tenha te tocado. Afinal, é impossível dançar tanto tempo sem se tocar, seria uma dança sem ritmo e coordenação, longe da sinfonia que nós temos.

Portanto, velha amiga, te dedico meus pensamentos na vaga tentativa de transcrevê-los acima. É uma narrativa cheia de dor, angústia, prazer, amor, com muitas emoções, mas nunca com ressentimentos. Eu não mudaria nada da nossa história, não mudaria nenhuma promessa que fiz, mesmo não tendo cumprido muitas delas, e termino lhe prometendo que não pretendo te escrever mais por tão breve. Sei que você pode estar rindo agora, sempre foi muito irônica, mas você sabe que da forma como você me quer e quem você quer, não pode ser a mesma caso eu esteja com você, nem sequer poderá ser. Então não se preocupe, esse momento vai chegar, mas não é agora.

 

Com todo o meu amor,

 

Muriel