Convite à vida num dia de finados

Convite à vida num dia de finados

16 de novembro de 2018 0 Por

Por Lívia Félix

 

Eu gritava
E ninguém escutava
O som da minha voz
Eu gritava
E o som da minha voz
Não saía da minha garganta
Eu era pequenina
As pessoas passavam por mim
Mas não me viam…
Eu olhava pra cima
Mas tudo o que avistava eram pernas
Eu estava dentro de um buraco
E ninguém me via
E eu gritava
E ninguém me escutava
Esse era o meu pior e mais frequente dos meus pesadelos
Quando eu era criança
E de vez em quando
E de quando em vez
Ele ainda se realiza…
Era uma sensação estranha
Como se eu fosse um fantasma
Desesperador
Não ser vista nem escutada
Mas hoje
De vez em quando
E de quando em vez
Eu me pergunto
O que é escutar?
O que é ver?
O que é viver?
Creio que há uma diferença radical
Entre ser e estar vivo
Entre estar e ser morto
Creio que já morri algumas vezes nessas vidas
E hoje se me perguntassem numa roda viva
Você tem medo de morrer?
Ou ainda
Qual o pior tipo de morte?
Eu diria: a morte em vida!
Sem sombra de dúvida
Com luz de certeza
Sabe aquela vidinha mais ou menos?
Sem afetação
Sem emoção
Sem coração
Aquela vidinha mais ou menos
Lua minguante de afetamentos
Lua cheia de arrependimentos
Do que se deixou de fazer
Pelo medo de falhar
Pelo medo de sofrer
Como se a gente não estivesse aqui para falhar e aprender
Como se sofrer não fizesse parte do viver
Como gosto de dizer
Se viver fosse fácil
Chamava viagem de férias…
E não vida.
Armaria…
Deus me livre!
Do desamor, do dessabor e do tédio…
Que é viver assistindo a vida dos outros na novela
Que é viver esperando a vida passar pela janela
A vida é tão bela
Mas tão bela
Que dela
A gente faz poesia
Mesmo sem maestria
A gente faz graça
Mesmo na desgraça
Sabe aquelas pessoas que vivem esperando a morte chegar?
Todo dia morrendo um pouquinho
E deixando de viver um tantão
Tá aí uma coisa que me dá um medão…
Morte em vida.
É o tipo de medo que me dá coragem de viver.
Intensamente, se possível for…
Se for possível, vivamente.