Reflexões sobre a Morte

Reflexões sobre a Morte

24 de novembro de 2018 0 Por

Por Janine Alves

Primeiro Bardo

Oh, amigo O tempo caminha em direção a ti para te levar a novos planos de realidade. O teu ego e teu nome estão em jogo de acabar. Estás pondo-te em frente da Luz Clara. Tu estás experimentando esta realidade. No estado de liberdade do ego onde todas as coisas são como um céu vazio sem nuvens. E o intelecto nu e limpo é como um enxerto vazio. Neste momento conhece por ti mesmo e habita neste estado. O que é chamado morte do ego está vindo para ti.

Recorda:

Esta é a hora da morte e renascimento. Aproveita esta morte temporal para atingir o perfeito estado. Ilumina-te. Concentrado na unidade de todos os seres vivos. Mantido sobre a Luz Clara. Usa-o para alcançar o entendimento e o amor. Se tu não podes manter a felicidade da iluminação e se tu te estás deslizando dentro do contato do mundo exterior.

Recorda:

As alucinações que podes experimentar agora, as visões e introspecções te ensinarão muito sobre ti mesmo e o mundo. O véu da rotineira percepção será mudado em teus olhos. Recorda a unidade de todas as coisas vivas. Recorda a glória da Luz Clara. Deixa-te guiar através de tua nova vida que vem. Deixa-te guiar através das visões desta experiência. Se te sentes confuso, invoca a memória de teus amigos e de teus mestres. Trata de alcançar e conservar a experiência da luz clara.

Recorda:

A luz é a energia vital. A chama sem fim da vida. Um ondulante e sempre mudável torvelinho de cor pode apoderar-se de tua visão. Esta é a incessante transformação da energia. O processo vital. Não temas. Entrega-te a ele. Une-te. Forma parte de ti. Tu és parte dele.

Recorda também:

Mais além da contínua e fluente eletricidade da vida está a última realidade. O Vazio. Teu próprio saber, formado na não-possessão de forma ou cor, é naturalmente vazio… A realidade final. O Todo bondade. O Todo paz. A Luz. Resplandecente. O movimento é o fogo da vida do qual tudo vem. Une-te. Forma parte de ti. Mais além da luz da vida está o pacífico silêncio do Vazio. A quieta felicidade mais além de todas as transformações. O sorriso de Buda. O Vazio não é o nada. Desobstruído, brilhando, comovendo, feliz. O vazio é o princípio e o fim ele mesmo. Consciência de diamante. O Todo Bondade Buda. Tua própria consciência, brilhando, vazia e inseparável. Não-pensamento, não visão, não-cor, é vazio. O intelecto brilhando é cheio de felicidade e silencioso. Este é o estado de perfeita iluminação. Tua própria consciência, brilhando, vazia inseparável do grande corpo resplandecente, não tem nascimento, nem morte. É a imutável luz que os tibetanos chamam Buda Amitabha. O saber da não-forma começando. Conhecer isto é suficiente. Reconhecer o vazio de tua própria consciência para ser domínio de Buda Permanece neste reconhecimento e tu manterás o estado da divina mente de Buda.

(O livro tibetano dos mortos ou Bardo Thodol)

 

Seu “João” tinha 64 anos e estava internado no hospital com dor na barriga. Aos olhos de uma estudante que o observava, estava ativo, com a cor talvez um pouco amarelada, bastante lúcido e orientado em tempo e espaço, apresentando bom estado geral. Ansioso e com medo da morte. “Cético”, foi o que me respondeu quando o questionei sobre a sua religião, foi um “cético” bem assertivo, seco e de quem não estava com muita paciência para perguntas. Foi uma entrevista difícil, mas eu consegui ganhar um pouco da confiança do paciente quando este, de olhos vidrados na televisão, se sensibilizou com uma canção da Elis Regina que passava em um desses programas da tarde.

–  “O senhor gosta de música?” perguntei.

– “Sim, eu era amigo da Ivete Sangalo e do Vinícius de Moraes”, respondeu seu João em um tom confiante e nostálgico talvez.

A partir daí a conversa ficou mais fluida e leve, pelo menos para mim. O paciente era professor aposentado e entendia muito de anatomia e da sua doença, a cada pergunta que fazia, ele me respondia mais querendo me ensinar do que meramente responder. Seu João tinha um câncer no fígado e o seu prognóstico não era dos melhores; quando o meu professor (médico oncologista que cuidava do caso) chegou, o doente foi logo dizendo “Olha doutor, notícia boa você dá pra mim, mas as ruins você dá pra ela (apontando para a amiga que o acompanhava)”.

Já que a consciência humana se dá pelo contraste, nada mais propício do que a morte e a vida para as ideias florescerem. Mas seu João era cético e estava com medo da morte. Talvez por não acreditar em algo maior, a morte para ele representasse uma ilusão e como o ferro morre pela ferrugem, o corpo morre pela doença. Seu João estava doente, disso ele tinha noção. Sócrates afirmava “Cada coisa tem um determinado mal que lhe corresponde e esse mal atua sobre essa coisa”, mas quais são os males da alma? Os vícios? Seu João era dependente de álcool, começou a beber com 18 anos e com o tempo foi aumentando a quantidade até que aos 40 anos o mal hábito começou a prejudicar sua vida, atrapalhando-o no emprego e relacionamento.

O medo pode estar muito relacionado com uma identidade forte ao corpo, com o materialismo. Quando acreditamos que o corpo é externo talvez fique mais difícil aceitar a morte. Recorrendo novamente a filosofia temos que “Só perdemos aquilo que não é nosso”, então o que é realmente nosso? A alma, a nossa essência, pois até mesmo os nossos ossos podem se desintegrar, principalmente em casos de metástases ósseas (não sei se era o caso do paciente). Eu enxergo o medo de seu João um pouco como o quadro de Michelangelo “A Criação de Adão”, o medo de pegar na mão de Deus, “Será que eu pego ou deixo para trás?”.

Não há como entender a morte se não entendermos a vida. O canto que abre esse texto é de um livro chamado “O Livro Tibetano dos Mortos”, esse mesmo livro diz em alguma frase que “não há um minuto da tua vida que não sirva para te ensinar. A vida não deixa vácuos”. Algo tem que morrer para o amor poder se expandir.

Seu João, assim como todos nós um dia, vai perder o corpo físico e enxergar um grande clarão. Eu serei eternamente grata pelos ensinamentos que ele me proporcionou e espero que ele esteja preparado e mais confiante de um bom renascimento em paz.