Encapsulada

Encapsulada

4 de dezembro de 2018 1 Por
Por Daniela Goulart

 

Sonhei que tinha uma cápsula do tempo
Cápsula sonífera, sonora, sorrateira cápsula salvadora
Cápsula que me levava pra uma terra distante, insolente, verdejante
Lá chegando, que estranho, brisa leve e fresca,
cheiro de chuva e terra molhada
café no bule e uma fornada assada,
barulho de grilo, de risadas, abraço de mãe e mais nada

A memória, sua besta, é coisa mesmo desassossegada
vem aos poucos, sem sentido, meio atrapalhada
Mas o que nos resta dessa vida humilhada
se não se desejar umas bobajada?

De repente, então, a cápsula caiu.
Morri e o pesadelo começou
Ouço um barulho de vermes. Estão a comer meu corpo?
Mas aqui ainda estou
Minhocas na cabeça e esse cheiro inefável de café.

Foi ela, essa amarga e mentirosa,
cápsula barulhenta de café, que me trouxe de onde vim.