Caminhante

Caminhante

5 de dezembro de 2018 1 Por
Por Heitor Blesa

 

São dias, hoje, distantes
aqueles os quais vivi
como os flâneurs¹, errante,
na cidade em que nasci.
De poucas coisas me lembro
desse povo que fui membro,
mas é difícil esquecer
os olhares perpetrados²
por juízos antolhados³
mirando me envilecer⁴.

 

Do centro aos arrabaldes⁵
vi na faina⁶ desse povo,
sob o sol e tempestades,
a busca por um renovo.
Um anseio por mudança,
próprio da esperança,
mas não para o bem fazer.
Era algo de vilania,
típico da tirania
desejosa pelo poder.

 

– Ocorreu-me uma certa vez,
perambulando as ruas
sem pressa e sem rapidez,
pela tarde, lá pras duas,
entrar em uma boa loja
e vê que algo enoja
aos transeuntes do local.
– Era a minha presença
sem real anuência
dos guardiões da moral.

 

O meu corpo foi medido
dos pés até a cabeça,
como para ser vendido
a quem preço ofereça.
Um animal em exposição
sujeito a torpe visão
dos que atribuem meu valor
não pelo ser vivo que sou,
mas pelo que se formulou
dos corpos o exterior.

 

– No mundo do atacado
em que nada é pessoal,
fui como todos, taxado,
por um contexto social.
Eu não era mais um eu,
sim algo que se escreveu.
Não veem como pessoa
A mim. Sou tipo um monstro
E nada do que demonstro
Tornam a mim coisa boa.

 

– “Do mal representante
Meu destino é a morte
E desse pesar tocante
Nem me liberta a sorte.
Eu já vim ao mundo assim
E o serei até o fim”.
– O único erro crasso⁷
dos meus opositores
é que dos meus valores
eu jamais deles desfaço.

 

Essa falta de verdade
Nesse ar condescendente
Torna toda essa gente
Contra a autenticidade.
– Na terra do nevoeiro,
de íncola⁸, estrangeiro
é o como sou medido,
nem pelos meus ancestrais,
in memoriam, sou jamais
nessa terra fria querido.

 

– Sentei-me e tomei um chá.
– Nesta terra me formei
sem muitas chances ter, quiçá
as condições que sonhei,
mas hoje em retrospecto
vejo todo meu trajecto
e entendo o que passei,
não eram simples avenidas
eram lições adquiridas
dos povos por onde andei…

 

Aprendi a valorizar
tudo que realmente sou
assim como em paz amar
aqueles que me magoou.
Nunca que eu saberia
a diferença que havia
em mim, sem que por eles não
o fosse. Por isso feliz
afinco minha sã raiz
nas profundezas desse chão

 

Tornando-me estandarte
do ideário humano
para conquistar destarte
o delírio insano
de que todo diferente
não tem direitos de gente
e sempre são ameaça.
Onde eu andar, levarei
esse saber, tanto ao rei
como aos jovens na praça!

 

 

1 – Flâneurs = Flâneur, do substantivo francês flâneur, significa “errante”, “vadio”, “caminhante” ou “observador”.
2 – Perpetrados = O mesmo que: executados, realizados.
3 – Antolhados = De antolhos, parte do bridão que protege os olhos do cavalo e o impede de ver lateralmente; Uma visão muito estreita das coisas que o cercam; Desejar ver apenas um lado das coisas.
4 – Envilecer = Fazer ficar vil ou desprezível; perder a honra ou o primor; humilhar ou humilhar-se.
5 – Arrabaldes = Que se encontra localizado na periferia de uma cidade; fora dos limites de uma cidade; subúrbio.
6 – Faina = Trabalho que se faz contínua e permanentemente; lida.
7 – Erro crasso = um erro inadmissível; grosseiro; estúpido.
8 – Íncola = Pessoa que vive em certo lugar; morador.