O Capote

O Capote

9 de dezembro de 2018 0 Por
Por Milena Sarti

Ainda não li o conto. Optei por escrever a curadoria de “O Capote” previamente à
minha afetação por ele, previamente a (in)vestí-lo de mim mesma, de minhas próprias
fantasias e devaneios. Missão que já fracassei ao parágrafo seguinte…O que falar sobre
Gógol e o seu Capote, no que é possível para mim dizê-lo desde fora?

Quando comecei a ler Dostoievski aos 20 e poucos anos, me apaixonei, e lembro que
comecei a vasculhar a literatura russa, querendo mais. (Porque a gente sempre quer mais
do mesmo no terreno da paixão). Na época eu pensava/fantasiava: esses russos tem algo
a mais que os outros a oferecer. Para escreverem tão bem e tão afiados sobre as nuances
complexas de ser só um humano, devaneava uma cena: um frio danado, uns casebres, a
solidão do inverno que os empurrava a uma jornada da alma através da organização de
palavras, muita vodka, muita tinta, muitos textos às luzes e os calores das velas e
lareiras…ir às profundezas tem que ter cenário, eu imaginava. Entre Tchecov’s, Górki’s
que me chegaram enquanto vasculhava, também me veio Nikolai Gogol…que extraviou
de minha vista. Presenteei amigos, mas nunca pessoalmente me sentei com suas
palavras. Até hoje!, quando a lembrança de seu capote para sugestão de leitura em nosso
Clube brotou na cabeça. Do Império Russo do século XIX, por meio da memória de
uma paulista do século XX, será lido no sertão baiano do século XXI “O capote”…Uma
ponte se faz. É chegada a hora? Respeito o tempo das coisas…essa coisa monstruosa que
é o tempo.

Nikolai Vasilievich Gogol nasceu em 1809 e morreu em 1852 por inanição, aos 42
anos. Devido a ter nascido no que hoje é território ucraniano e antes parte do Império
Russo, há uma briguinha em torno de sua nacionalidade. Russo ou ucraniano? Talvez
isso seja algo relevante para este autor (não só para ele, né?), já que sua obra é marcada
por contos folclóricos que enaltecem seu pertencimento simbólico e territorial, e
também pela fase de “histórias petersburguesas” em torno de seus sentidos se voltarem
para a temática do urbano. Essa divisão não só marca sua obra, como também remete o
próprio autor à sua divisão como sujeito, e ao papel da fantasia em sua vida/obra.

Foi considerado alguém de personalidade bastante singular e enigmática, de criação
religiosa-cristã e muito apegado à mãe, tendo desenvolvido poucas relações afetivas e
escrito esparsamente seus contos, novelas e peças de teatro, que mesmo assim
revolucionaram a literatura, não só russa. Há também em torno dele um acento
autodestrutivo, face ao qual é fundamentado seu estilo satírico e seu humor sarcástico
como soluções de compromisso textuais aos seus próprios problemas e dificuldades de
experimentar o amor. Seus biógrafos costumam levá-lo ao divã, ao que parece, e seu
estilo se apresenta como tragicômico, fazendo rir e chorar. Suas personagens,
notadamente masculinas, sempre são delineadas sob um aspecto fragmentado e
incompleto, caricaturando de forma escarnica a condição e a fragilidade humanas na
busca de um sentido, sempre evanescente, frente às experiências junto à sinistra
realidade sócio-cultural da capital russa à essa época que o autor olha sob uma lente
absurda e “desautomatizadora” (REVISTA CULT, 2009).

Em 1842, escreveu a novela “O capote” na fase de São Petersburgo e esta se tornou sua
obra mais representativa, como indicia a famosa frase de Dostoievsky: “Todos nós
saímos de O Capote de Gogol”, e cuja ambiguidade maravilhosamente estranha, bem
fiel ao estilo de Gogol, só poderei (e poderemos) atribuir sentido após a leitura da obra.
Para mim, essa frase é o maior convite eternizado e feito a todos nós…desde dentro.