Escritos de Estrada

Escritos de Estrada

16 de abril de 2019 1 Por
Por Anne V./ LapisLazuli

 

I.

ei, você, ser
que me lê
que me vê

que não seguirá esta
e nenhuma outra ordem

que habitou e
desabitou e
reabitou  —

terras, lugares
pessoas, mentes
ares e mares

— caminha!
que tanto caminha
que chega

vai rir
vai cantar
vai florir

e vai (ha)ver cores

mas caminha,
tem que caminhar.

II.

normalmente durmo, mas hoje, não
hoje eu vi as vistas presas numa imensidão cinza
tudo pregado numa terra velha, vermelha, avermelhada, ferrugem
e vários desses nomes de cor
uns poucos verdinhos pingados e florzinha tentando viver.
vi muita palma e um gado magro logo ao lado,
casa de joão-de-barro em tudo quanto é canto,
cruz e plaquinha se fazendo de cemitério de beira de estrada.
— eu gosto até do sol queimando o capinal.
senti a quentura disfarçada de vento e ela cantou assim no meu pé d’ouvido:
a brisa veio feito cana mole e doce, me roubou um beijo, flor-de-querer-bem
tanta lembrança esse carinho trouxe, um beijo vale pelo que contém…

é tudo um brasil só, que eu sei
mas o sentimento de sertão é coisa outra, que eu sinto.

III.

passei do litoral ao sertão num piscar de olhos
quando o tempo é comparado com a dimensão de uma vida
fui de areia branca fina à terra vermelha batida
todas unidas pelo mesmo sol quente
sei nem se é verão, porque as bandas do meu coração não conhecem calendário
sei pela temperatura que fica meu corpo e pelos sentimentos de época
verão também é estado de espírito
e digo, sair do litoral e encontrar o sertão todo esverdeado até renova as forças
e restaura aquele sentimento, qual o nome?
é aquele que faz até sentido relacionado com a mesma cor das folhas que tô vendo agora…
esperança que chama.

se o sertão consegue, eu também
é só uma questão de tempo e água.

IV.

viajo mentes além, dias sim, dias não
de cada hora que tem o dia
de cada minuto que tem a noite
em todos me vêm essa lembrança verde
saída do único verde que é verde e que funciona verde,
em tudo que é lembrança viva tem você

você que sabe que, de perfeição, só a vivida
nesse seio perfeito de natureza velha.
desse toque de fineza na liberdade selvagem
e que para seres pele osso, isso é inalcançável

é coisa vinda da antiguidade do universo
do que resistiu, foi e é.

V.

VI.

mas caminha,
tem que caminhar.