Lanugem

Lanugem

16 de abril de 2019 0 Por
Por F.

Eu costumava apreciar longas barbas.
Aqueles pelos me causavam
pequenas cócegas
mesmo que a grandes distâncias.
Eram majestosas,
traziam coroas invisíveis aos seus donos.
Um certificado, talvez,
do poder que tinham.
O poder de esconder,
ou não mostrar.
A opulência de uma árvore
que dá frutos
e que também carrega um ninho.
Não as aprecio mais,
ou melhor dizendo,
já não me causam mais tantas cócegas,
só aquelas especiais,
que são de pessoas específicas.
Com essas posso dizer que
só amo a barba porque
é uma parte,
não a amo por ser o todo
ou a parte principal.
Talvez nem isso.
Hoje prefiro aquelas mais curtas
ou uma cara limpa,
que se mostra mesmo,
como menino traquino
que não tem vergonha do que fez.
É que eu preciso ver os ângulos,
onde o rosto dobra,
faz curva bonita
e arquitetada.
Não são os pelos que me incomodam,
são os disfarces.
Fulano quando quer mudar de feição,
põe barba postiça,
tampona a dor com coisas raspáveis,
impossibilitando de ver o suor
tinindo
naquela protuberância causada pelo
osso do olho
que não sei o nome.
Outra hora eu lembro,
talvez quando esquecer a barba.
Lembrança é foco tendencioso,
que não é olhar para trás,
mas já guardar conforme
nosso desejo de lembrar.
Eu lembro daquilo que vejo que quero lembrar.
Lembro do que eu vi.
Mas o que eu não vi?
É possível lembrar do que eu não vi?
Era da barba que eu tava falando,
não era?
Já não lembro mais.
A barba virou outra coisa,
as lembranças também podem virar outras.
Não são estáticas no tempo.
Rememoração.
Que não altera os fatos,
mas o que vejo deles.
Existe mais do que a gente vê então.
Mais do que eu posso lembrar que vi,
mas que se eu olhar de novo
com o olho de futuro,
posso ver o que não vi
com o olho de passado.
Lembrança é lambança.
Bagunça que a gente faz
para se apegar
a coisas que não existem mais,
mas que precisamos
que fiquem
para não sentirmos a dor do movimento.
Lembrando do que eu
estava
falando,
talvez eu não aprecie mais longas barbas
porque quero lembrar como era antes
de ser moda esconder
ou não mostrar
ou mostrar,
só que não o que
eu quero ver.
Vontade de me deslocar do agora,
rememorar o passado no presente.
Recomeçar
e ver de novo uma transição
de como os pelos nascem e se tornam barba
em um rosto nu
e recém-nascido.