Flor de Laranjeira

Flor de Laranjeira

31 de maio de 2019 1 Por
Por Muriel Marinho

 

Minha mãe me disse que eu nasci de uma flor diferente, que enquanto muitos nasceram da flor do desejo de outros, eu nasci da flor do meu próprio desejo. Ela é muito bonita, a minha mãe. Fica brilhando lá no céu quando tá cheia e às vezes some em escuridão. Quando eu não a vejo, eu tenho que fingir que é sol novamente, é difícil demais andar sozinha, principalmente quando não tem luz para iluminar o caminho e eu caio sempre. Tenho visto ela menos ultimamente, mesmo estando lá no céu, são nesses dias que eu tenho que forçar um verão em mim como se flor só necessitasse do sol para crescer.

Meu corpo de flor é estranho, não cresci majestosa. Desenvolvi minhas pétalas muito tempo depois, fiquei grande parte do tempo presa na casca da minha própria semente, esperando o tempo e o terreno certo para germinar. Eu mesma me reguei com os meus orvalhos que condensaram de fora pra dentro, intrusões aquosas que me invadem e revigoram em junção com o calor do sol que me obriga a crescer quando eu não quero, fazendo da lua minha melhor amiga e consoladora e que às vezes é quando cresço de verdade.

Hoje vivo sem nenhum deles, arranquei minhas raízes do solo que se tornou infértil, vi minhas irmãs que brotaram dos outros morrerem uma por uma e eu logo seria a próxima se não me retirasse. Caminhei quilômetros desnorteada e com sede de algo que não tinha nome, era o tipo de sede que só surge com o ato de caminhar, com a sensação das raízes queimando no chão de barro de um dia escaldante. Acho que nunca poderia sentir sede assim se tivesse ficado parada em um só lugar, talvez não sentiria sede nenhuma.

Na ordem evolutiva da minha espécie, passei de flor para camaleão, e me adaptei aos ambientes mais inóspitos só pela sobrevivência. Foi quando percebi que meu corpo não tinha forma se não a forma que eu quisesse que tivesse em determinada hora e dia. Até onde eu sabia, poderia eu mesma virar a lua para brilhar lá no céu, eu poderia virar o coelho que reproduz em grande escala, poderia virar a abelha que produz em grande escala, eu poderia virar o sol que mata e faz nascer na mesma proporção.

Mas camaleão é mais próximo da cobra que rasteja, que precisa deslizar entre os espaços, mais próximo da lagarta que acha que liberdade é se tornar borboleta, mas logo se torna mariposa negra e vive condenada ao voo eterno, impossibilitada de caminhar quando quiser, se agarrando aos umbrais entre luz e escuridão nos cantos das paredes de outros, sonhando em não ser vista ao mesmo tempo que faz esforço para ser notada pelo horror que suas asas causam. Poderia eu mesma virar lagartixa nessas mesmas paredes, que vive para devorar mariposas negras condenadas a voar.

Eu só não poderia ser gente. Minha mãe dizia que gente não enxerga o que pode se tornar, que seus corpos são sempre presos pelos moldes que outro homem gigante fez nos primórdios dos tempos e que qualquer uma que nega esses moldes vira flor igual eu. Eu perguntei para o vento se eu fui gente antes de me tornar flor e ele falou que não. O vento é o que tenho também como ancestralidade, foi ele que trouxe o pólen que me fez fértil suficiente para nascer e por isso sou vazia por dentro, independente de como evoluir. Terei sempre vento no meu estômago de flor, vento no espaço entre os meus olhos e na minha língua de camaleão que tentam ambos alcançar a essência das coisas. Terei sempre vento no meu radar de serpente, vento nas minhas asas de mariposa negra temida.

Filha do vento, criada pela lua, pelo sol e também por mim mesma, espero o dia de não ser. Ele chega a todo momento que eu tô pronta para virar outra coisa e eu sempre acho que é o momento final. É impossível flor morrer e não virar novamente semente, minha mãe dizia. Quando eu tô cansada de tanto voltar, é quando faz bem ser mariposa e ficar presa no meu umbral, esperando o dia para enfim nascer no pé de laranja, alvinha e em formato de estrela, para lembrar que meu corpo de flor também é feito com pó de céu e que por isso também sou prima das explosões cósmicas que deixaram de ser muito tempo atrás. Quem sabe eu mesma não seja explosão cósmica que deixou de ser faz muito tempo, mas que só pode ser vista agora. De longe somente meu brilho pode ser visto, mas com o telescópio é possível ver as partículas de um corpo fragmentado pronto para se tornar outra coisa e polinizar o espaço com mais flores de laranjeira, nascidas do corpo das flores do próprio desejo de ser.