Nós

Nós

31 de maio de 2019 1 Por
Por Caio Resende

 

 

A hora-vertigem, a hora derradeira em que o corpo,
então entregue, se arvora no silêncio de tudo.
Essa a hora em que o sangue é de todo passagem,
terra convulsa na infância das coisas.
É nessa hora sem lugar que o teu rosto se esconde,
escorrendo na lama do agora sua veste de sombra –
seu gesto perdido: a voz subtraída da eternidade.
E sem saber eu invento o teu nome.
Sob teus olhos dorme o caminho da nossa distância.
Como quem morde, como quem nasce
da boca secreta do instante, essa foz me alcança:
já não somos dois. Somos o fora, a vertigem, o hiato.
Uma dança povoa nossa febre e derramamos uma orla no vazio.
Calados, abraçamos nossa sombra com a língua
com os dentes com a morte. Calados, com uma figueira
sangrando sob os poros, destilamos nossa vida
com a morte: o amor é uma guerra sem pátria